

Meninas da Noite é um livro do jornalista Gilberto Dimenstein. Fala de meninas consideradas escravas da região Norte e Nordeste do país. Dimenstein viajou durante seis meses pelo Norte e Nordeste do Brasil, procurando lugares onde meninas eram escravizadas sexualmente ou quase mantidas em cativeiro. Um ótimo livro que retrata a terrível realidade do Brasil.
Estou disponibilizando aqui o texto que escrevi baseado nesse livro para o teatro de ontem...
Enjoy! :)
1º Ato
A luz vai estar baixa, escondendo o cenário que terá a parede coberta por TNT branco com desenhos de janelas desgastadas. Á esquerda do palco vai haver cadeiras e mesas junto há um globo de luz. Á direita, uma cama e uma escrivaninha, representando um quarto de motel barato.As mesas vão ser ocupadas por garotos bebendo cerveja e conversando, mas não será emitido som algum. As dançarias estarão espalhadas pelo palco: Uma encostada na parede com um cigarro na mão, um grupo conversando entre si e outro conversando com os garotos.Uma figura vestida preto entra no palco. Ela vai estar toda vestida e maquiada de preto! Usara também um capaz. No casa, essa pessoa representará a morte.
Morte: –(diz imitando o cafetão) “ Venham! Venham! Aproximem-se cavalheiros! Embriaguem-se com a melhor cerveja dessa cidade e droguem-se com as melhores garotas do bairro!” (balança a cabeça negativamente, rindo cínica.) – E é assim toda santa noite... Um copo de cerveja, uma conversa ali e aquela (aponta para os homens atrás dela) e mais uma inocência sendo vendida por uma miséria! Tudo para conseguir sobreviver, mas cá entre nós, em pouco tempo suas almas estarão em minhas mãos. É sempre assim... Uma prisão sem grades! Um labirinto que a cada dia fica mais complexo e difícil de escapar. Pois é, vejam como tudo no mundo roda em torno do dinheiro e da ganância... (expressão pensativa) Uma curiosidade: O ser humano me intriga mais a cada dia que passa e, quando eu penso tê-lo entendido, ele me surpreende... (sorri cínica) Ah, antes que eu me esqueça, eu sou a Morte, prazer. (se abaixa, como se estivesse se apresentado á algum rei.) E eu tenho hoje uma historia para lhes contar. Fiquem á vontade e um ótimo espetáculo.
A morte se senta em uma das cadeiras vazias e fica observando como se fosse um fantasma.A dançarinas se colocam na posição. Elas dançam a coreografia como se dançassem para os homens do bar. Enquanto, os últimos citados observam a dança com expressões maliciosas em seus rostos.
Sugestões de músicas: The Dope Show (Marilyn Manson), Stripper (Soho Dolls), Stripper Friends (Tila Tequila).As garotas terminam de dançar e vão conversar com os garotos. Amanda: (vai em direção á um garoto, mas desmaia que é segurada pelo mesmo.)
Cafetão: (Entra em cena com raiva e agarra a protagonista pelo braço, sacudindo Amanda até ela acordar.) –Garota, eu não te pago pra isso! (a puxa pelos braços, jogando Amanda no chão do canto direito do palco.)
Amanda: (chorando ainda meio tonta) – Me desculpa, é falta da heroína.
Cafetão: (pega a orelha de Amanda, levantando-a do chão) –Heroína é o teu pai, mulher! Se eu te ver desmaiando por ai de novo vão haver conseqüências!
Amanda: (concorda com a cabeça)
Cafetão: (Solta a orelha da menina e cospe em seus rosto) (Sai de cena)
Amanda: (caí no chão chorando com as mãos no rosto.)As luzes são apagadas, deixando somente uma luz focada em Amanda que ainda esta estirada no chão. Os garotos e as outras prostitutas saem de cena enquanto ainda estiver escuro.
Amanda: (olha pros lados, desconfiada. Se arrasta até a escrivaninha e abre a gaveta tirando de lá um pacotinho de Heroína) – Ele continua guardando no mesmo lugar de sempre (limpa seu rosto, sorrindo ao ver a droga em suas mãos.) Amanda tira um elástico de seus bolsos, junto á um isqueiro, uma colher e uma seringa desgastada. Ela amarra o elástico em seu braço e coloca o isqueiro por baixo da colher, como se esquentasse a heroína.
Morte: (entra no palco novamente dizendo) – Ah, Vícios! Ruim com eles, pior sem eles. Foi uma das primeiras coisas que aprendi observando os humanos. Drogas, Álcool, Ilusões de uma vida melhor... O mundo é um grande abrigo de vícios e viciados. Ah, o nosso adorável Mundo Cão: Injustiças, abusos, desilusões, mentiras, hipocrisia, violência... Um mundo aonde você, você talvez foi vendido pelo próprio pai, como aconteceu com Amanda (apontada para a garota atrás dela), um mundo aonde você não tem mais chances ou, simplesmente perdeu a fé e não sabe mais em que acreditar.
Amanda: (começar a ter uma Bad Trip e á tremer.) (Quando a morte já esta andando até ela a garota para de tremer e morre de olhos abertos)
Morte: (Caminha até Amanda e se ajoelha, fechando seus olhos) (A morte levanta novamente, dizendo) – Todo fim contém um começo, mas nem sempre esse começo possui um fim digno. A vida é assim para certas pessoas... Suja e Apocalíptica. E essas pessoas têm que viver como estátuas para sobreviver: Frias e sem sentimentos a não ser consigam se acostumar a chorar gotas de sangue.As cortinas se fecham e o cenário é arrumado para o 2º ato.
2º Ato
Os homens voltam a conversar no bar no canto esquerdo do palco e o quarto de motel vira o quarto da próxima protagonista, Anna.Serão adicionados um tapete, bichinhos de pelúcia em cima da cama e um porta-retrato sob a escrivaninha. As cortinas se abrem com Anna e seu pai conversando animadamente em cima da cama. Enquanto os rapazes do privê cantam as prostitutas e conversam animadamente com as mesmas.A morte está encostada na parede do palco, entre os dois cenários, como se fizesse uma comparação entre ambas as situações.
Morte: - Pai, figura materna. Alguém que sempre visamos poder confiar e amar... (sorri cínica) Mas alguns se rendem á ingenuidade e esquecem que, nesse mundo, não se pode confiar em ninguém. (pausa) Sonhos podem ser destruídos tão facilmente... Basta juntar um pouco de propósito e desgosto para sentir seu coração tornando-se cinza e cada vez mais pesado. Alguns não respeitam o próprio sangue, quanto mais respeitar os sonhos? (se senta na berada do palco, como se também assistisse o teatro)
Pai: (coloca uma mão na cocha de Anna) – Você é muito linda, sabia?
Anna: (olha confusa para a mão do pai, mas continua) –Ah, obrigada pai.
Pai: (olha nos olhos da filha) – E você sabe que eu te amo, não é?! Você me ama, filha?
Anna: (responde, sorrindo) - Claro pai! Faria qualquer coisa por você!
Pai: - Mesmo?
Anna: (balança a cabeça positivamente) – Aham.
Pai: (deita Anna na cama e se deita ao lado da mesma acariciando os cabelos da filha) – Então dorme comigo.
Anna: (arregala os olhos e se levanta rapidamente)
Pai: (puxa Anna pela cintura, tentando tirar sua roupa)
Anna: (se debate e grita) – Mãe! Mãe! Socorro! Me Ajuda!
Mãe de Anna: (entra em cena correndo e coloca a mão na boca, chocada com a cena que vê. Ela começa a tremer, mas não faz nada, por medo do marido)
Anna: (dá um chute nos países baixos de seu pai e consegue se livrar dele)Ela desce correndo a rampa do palco até chegar na entrada do auditório. Anna se agacha com as mãos na cabeça, como se quisesse tirar as cenas de sua cabeça.
Anna: (pega seu celular no bolso e olha as horas) – 1 da manha, eles já devem estar dormindo. (suspira e volta andando pro palco, pegando sua mochila debaixo da cama e caminhado até o cabaré.)
Homem sentado em uma das mesas: (aponta para Anna dizendo) – Carne fresca, pessoal!
Anna: (abaixa a cabeça e pergunta a uma menina encostada na parede) – Onde eu posso encontrar a Amanda?
Garota: (tragou o cigarro, rindo) – Jogada em um rio qualquer.
Anna: (surpresa) – Co-Co-Como assim? Garota: (indiferente) – Ela esta morta, querida. Como amanhã eu, provavelmente, estarei. (jogou o cigarro no chão e pisou, saindo de cena)
Anna: (senta e começa a chorar, se lamentando) – Porque você tinha que me abandonar Amanda? Você era a única que eu tinha! Você prometeu nunca me deixar, lembra?
Cafetão: (passa cumprimento alguns homens e vê Anna encolhida no chão) – O que foi criança? Veio atrás de emprego? (afagou os cabelos de Anna com um sorriso malicioso no rosto)
Anna: (levanta o rosto, olhando pro cafetão) – Hmm.. claro. Eu não tenho pra onde ir mesmo, então acho que isso é um sim.
As cortinas se fecham para o 3º ato.
3º Ato
O cabaré se espalha para todo o palco. Agora as mesas estão em ambos os cantos do palco, deixando o meio vazio aonde será colocado alguma um tablado e um microfone como se fosse um pequeno palco.No fundo, se possível, colocar para tocar a música Girls Girls Girls da banda Motley Crue para dar o clima mais adequado e deixar a luz fraca.
Cafetão: (sobe no palco, passando a mão pela cintura de Anna) – Carne novinha, quem der mais, leva!
Anna: (com short ou saia e blusinha; assustada)
Cafetão: - 10,00, alguém?
Homen1: (se levantando) – 20,00!
Homen2: - Dou 35 e uns trocados.
Homen3: - 50,99
Cafetão: - 70,00? Alguém?
Homen1: - 70,00!
Cafetão: Alguém dá mais? Dé-lhe uma, dá-lhe duas... vendida pro cavalheiro da frente.
Homen1: (puxa Anna pela cintura pra fora do palco enquanto os outros o parabenizam)
Morte: (sai da porta do auditório, dizendo) – Sabe, é incrível como algumas pessoas ainda tem a ousadia de me perguntar se vão pro céu ou pro inferno. Minha resposta é sempre a mesma: “Não se preocupe, pois se fores pro inferno não fará a mínima diferença já que viveu tanto tempo nesse mundo de insanos.” Eles sempre concordam porque já estão mortos mesmo e admitir que fizeram esse inferno esquentar mais e mais não ia fazer muita diferença. (pausa) O mundo gira em torno de escolhas: aveia ou cereal, avenidas ou ruas, beijá-la ou não... Nós fazemos escolhas e vivemos com as conseqüências. Resta-nos termos a atitude de mudar a vida para melhor. Não só as nossas vidas, mas também as dessas garotas que, virão chances passarem por seus olhos, mas não conseguiram agarrá-las...
A morte entra no camarim e as dançarinas encerram o teatro com a coleografia da música Num Labirinto do cantor Jay Vaquer.
Todos voltam para agradecer e o teatro é encerrando.
















